quarta-feira, 26 de agosto de 2015
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
Poesia alheia
''[...]
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.''
Alberto Caeiro
domingo, 9 de agosto de 2015
Crise que não ri escancarada
Crise que não encara escada
Crise sem cara ou rosto
Crise encosto
Crise que só enxerga o poço
Crise que só pensa em moço, quer dizer
Crise que não pensa
Crise que é só
Crise cri cri, e
Crise calada
Crise que funga e fala em lágrima
Crise que não quer saber se o capital dá lucro
Crise sem luxo
Crise lixo
Crise sem eixo
Crise que aumenta quando me mexo
Crise ao mentir
Crise ao ''verdadear''
Crise que não quer parar
Crise impaciente
Crise ciente de que não está em paz
Crise que eu não quero nunca mais, mas
Crise que eu vou ter
Crise que voo
Crise que anda
Crise que corre
Crise que manda
Crise
Crise que não encara escada
Crise sem cara ou rosto
Crise encosto
Crise que só enxerga o poço
Crise que só pensa em moço, quer dizer
Crise que não pensa
Crise que é só
Crise cri cri, e
Crise calada
Crise que funga e fala em lágrima
Crise que não quer saber se o capital dá lucro
Crise sem luxo
Crise lixo
Crise sem eixo
Crise que aumenta quando me mexo
Crise ao mentir
Crise ao ''verdadear''
Crise que não quer parar
Crise impaciente
Crise ciente de que não está em paz
Crise que eu não quero nunca mais, mas
Crise que eu vou ter
Crise que voo
Crise que anda
Crise que corre
Crise que manda
Crise
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